quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Escola - escravidão sob disfarce

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Possivelmente, na data em que resolvi publicar esta mensagem de arquivo (13 de Julho de 2010) , já a mensagem inscrita foi pintada. A Escola encontra-se em obras e já não era sem tempo! Aqui fica, contudo, a inscrição "in memoriam".

Quem escreveu nesta parede da Escola a mensagem da imagem ao lado o que pretendia?

Se fosse escrita há cinquenta anos atrás, o seu autor, se fosse descoberto, seria reprimido... Hoje assume-se como um pensador anarquista que livremente deixa uma mensagem à comunidade escolar e que esta mantém exposta há longos meses.

Ao silogismo aristotélico falta a conclusão, embora ela fique implícita. Assim, falta concluir que a Escola gera Escravos.

Na civilização cristã ocidental, a Humanidade, desde os seus primórdios, viu no "trabalho" uma forma de castigo. Após o pecado original dos nossos primeiros pais, Deus expulsa-os do Paraíso com a célebre excomunhão: "comerás o pão com o suor do teu rosto" (Gn 3.19). Portanto, a partir daí, apenas restava aos homens cumprir uma outra sentença do Criador "crescei e multiplicai-vos e dominai a terra" (Gen., 1, 28).

Ao longo dos tempos, vimos o Homem a fazer História em descobertas científicas e avanços tecnológicos, no sentido de "DOMINAR A TERRA"

Conseguirá, não conseguirá?!... Para já, ainda não!

O jovem que escreveu a mensagem tem, pois, razão pelo menos num dos seus pontos de análise: ele entende que a Escola é o caminho proposto a todos os jovens para uma vida a trabalhar para os OUTROS e não necessariamente para si...

Já o lavrador do Auto da Barca do Purgatório tentava explicar o mesmo ao Anjo que o questionava sobre a sua idoneidade para entrar na sua barca: "nós (os lavradores) somos as vidas das gentes e morte das nossas vidas".
Só que o Lavrador de Gil Vicente nunca tinha frequentado a Escola!
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Sala dos professores - último capítulo

Hesitei muito publicar a mensagem que os colegas me deixaram no jantar em que se propuseram homenagear-me.

As palavras que se seguem, escritas pelo João (que até nem esteve no jantar e portanto não a conhece), decidiram-me:

"Nunca penses que vales menos do que aquilo que vales. Deixa os outros procurarem a verdade na essência das coisas. Duns Escoto defendeu que a nossa individualidade é irrepetível. O abraço de sempre, apóstolo das coisas grandes!..."

JOÃO

Eis, pois, as palavra que os colegas de departamento me deixaram na hora da despedida:

"Chegou o momento de passares para uma outra fase da vida.

Não queremos, porém, que termines a tua carreira de professor sem te manifestarmos, como teus companheiros de grupo pedagógico e de departamento na Escola Secundária de Sebastião da Gama, a nossa admiração, o nosso reconhecimento e a nossa amizade.

Habituámo-nos, ao longo de cerca de três décadas, a ver na tua pessoa um professor de referência pela tua postura assente nos valores sólidos do humanismo cristão; pela dedicação à escola; pela disponibilidade para o trabalho conjunto; pela partilha de saberes e documentos; pelo cumprimento escrupuloso e apaixonado das tarefas e pela competência em todos os sectores da vida escolar; enfim, por um conjunto de virtudes que ultrapassam as exigências do mero profissionalismo.

Lembrar-te-emos, para sempre, como um homem inteiramente dedicado ao ensino, quer na actividade pedagógica com os alunos quer nos vários cargos que foste desempenhando, desde a Direcção de Turma à coordenação de ciclos e cursos e à assessoria do Conselho Directivo até à participação na Assembleia Constituinte e à presidência do Conselho Perdagógico que assumiste, nos últimos anos, com admirável competência, tendo em conta as profundas alterações que a escola tem vindo a suportar. Mas é, sobretudo, como Delegado de Grupo ou Coordenador do Departamento que mais recordaremos a tua grande competência e capacidade de coordenação, tanto na preparação minuciosa das reuniões, na riqueza do apoio documental, no profundo conhecimento dos temas, no domínio das novas tecnologias, na humildade e abertura das propostas e na moderação e sensatez das intervenções, como na liderança natural do grupo e na total disponibilidade para o apoio ao trabalho dos colegas, especialmente os mais novos.

Se fosses militar, trarias, hoje, o peito enfeitado de medalhas e estarias, agora, a ser agraciado com mais louvores e honrarias pelos relevantes serviços prestados... assim, num Ministério que é uma entidade sem memória nem coração e com as tropas dos teus alunos dispersos por esse mundo na azáfama do ganha-pão de cada dia, não levarás o peito cheio de medalhas, mas sim o coração cheiíssimo de velhos amigos.

Pedimos-te, pois, que aceites a nossa admiração, reconhecimento e amizade, com a certeza de que, com a tua presença, tornaste melhor o mundo para aqueles que te rodearam e contigo tiveram a dita de trabalhar.

3o de Setembro de 2008

Os professores do Departamento de Português e Francês"
(Seguem-se vinte e uma assinaturas)

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P.S.
Não era minha intenção publicar, como disse, estas palavras. Contudo as palavras do João
"Nunca penses que vales menos do que aquilo que vales. Deixa os outros procurarem a verdade na essência das coisas..." impeliram-me a publicá-las.

Apesar de continuar a pensar que há nelas um ênfase circunstancial, elas deixam-me muito satisfeito, sobretudo porque elas foram ditas por todos os meus colegas de departamento que eu vi juntos e determinados a continuar de forma coesa a sua missão de ensinar, apesar de tudo o que foi feito para os separar no último ano em que passámos juntos. Contudo, aqui fica o meu alerta para os anos que aí vêm em que uma avaliação condicionada à partida por quotas pode conduzir não a uma pedagogia partilhada mas a uma competição que pode levar ao individualismo egoísta e selvagem.

Sala dos professores - 3.º capítulo

Não pude ir ao jantar.
Guardo-te nestes versos

João
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QUARTETO

(ao Mata Fernandes)

Continuas linda
minha rosa de Outono
na luz da cor
na sinceridade da vida
obrigado...
fala-me de magia.

*
Foste bonita
eu sei
e numa lágrima de espanto
vivo a dor do teu fim
ao desapareceres
bela ainda...
fala-me de futuro.

*
Vi-te nascer
crescer
dar flor
e na cor do adeus...
fala-me de eternidade.

*
O cheiro a terra lavrada,
embebeda-me a alma
transtorna-me
troco tudo
troco o fado pelo destino
pela sina que eu leio
nas linhas baças do futuro
devotamente
no desmoronar dos dias
até ao meu regresso
em paz...

J.M. Gonçalves
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Obrigado, João!
Fico muito sensibilizado, pois nunca me passou pela cabeça que alguém pudesse "pensar-me" em versos. Só podias ser tu!

Obrigado, mais uma vez... não tenho mais palavras!

Joaquim
(Mata Fernandes)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sala dos professores - 2.º capítulo

Ontem, cumpri a minha última sala de professores como professor no activo.

Entrei, com os professores do primeiro turno da manhã, às 8.15, para a minha última aula com o 9.º. É uma turma "singular": 21 alunos no total, dos quais cinco estão sinalizados como sujeitos a P.E.I.; três outros alunos ficaram retidos no 9.º ano transacto. Despedi-me deles a falar sobre Gil Vicente e o seu teatro. "À barca, à barca, que temos gentil maré"... mas eu já a preparar a minha barca que, hoje, largou para outros rumos, outros portos, novas marés...

Depois fiz "sala de professores" até às 13.30 para me despedir de uma das minhas turmas do 10.º ano, uma turma do Curso Profissional Técnico, que me garantiu, na aula de apresentação, que lhe tinha sido dito que os alunos dos cursos profissionais não tinham de comprar / usar material de trabalho a Português. Lá lhes fui lembrando, que profissional sem instrumentos de trabalho que saiba utilizar nunca poderá aspirar a um trabalho condigno... Um "gozão" também me foi lembrando que o que ele mais desejava era "emprego" e não trabalho e, por solicitação minha, uma vez que se recusava a passar o sumário, fez a seguinte declaração que me entregou, com solenidade, no fim da aula: "Eu, segue-se o nome que omito, não passo nem o número das lições, nem a data, nem os sumários, visto que estes componentes não são nem estão no módulo e não são matéria e vão corromper o meu estudo" (sic). Foi uma aula má, conflituosa, penosa para o professor e alguns alunos. Sebastião da Gama, patrono da escola, me valha e me perdoe, mas deixei a turma aliviado.

Fiz novamente "sala dos professores" até às 17 horas, para dar a minha última aula (também a uma turma do curso profissional técnico) com que terminei a minha actividade como professor no activo. Lemos textos de cariz autobiográfico e anotámos as suas características. Ao terminar a aula, informei-os de que aquela era a minha última aula como professor, momento que eles sabiam que, mais tarde ou mais cedo, iria acontecer. Por momentos o silêncio caiu sobre a sala para, depois, um dos alunos me saudar com uma salva de palmas no que foi seguido pelos restantes. Agradeci-lhes emocionado.

Pelas 19.00 horas passei pelo Conselho Executivo para me despedir, oficialmente, da Escola.

Uma surpresa, contudo, ainda me estava reservada para este dia: os meus colegas do grupo disciplinar de Português e Francês ofereceram-me, (a mim e à colega Ofélia, anteriormente reformada), num dos restaurantes da cidade, um "jantar de homenagem", mas não de despedida sublinharam. Disseram palavras muito bonitas que me sensibilizaram imenso. Contudo, o que mais me tocou foi ver todos os colegas presentes, apesar de todos os esforços (intimidativos mesmo...) que, no ano transacto, foram feitos para nos separar.

Voltarei à sala de professores da Escola onde leccionei durante três décadas?

Não sei. Contudo, ficarei por aqui (atento a todos) com a disponibilidade que o meu "novo estado" me for permitindo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sala dos Professores - 1º capítulo

Hoje, na sala de professores, os meus colegas deram-me os parabéns.

Oficialmente soube ( e neste assunto fui o primeiro a saber...) que por despacho de 2008-09-22 da direcção da CGA me "foi reconhecido o direito à aposentação".

Sei que foram sinceros!... afinal este é um dos acontecimentos que na vida do comum dos mortais só sucede uma vez (não falo daqueles que forjam para si reformas após meia dúzia de anos a fazer não se sabe bem o quê...). Sei que foram sinceros e estou-lhes grato por isso. Estou-lhes também grato, pois a pensão que acabo de receber, em rigor, também eles me ajudaram a conquistar. Que é um professor durante a sua carreira sem os seus colegas de turma, de ano, de departamento, de escola? Nesta, mais que em qualquer outra profissão, a expressão "homem algum é uma ilha" faz sentido.

Obrigado, muito obrigado, pois, a todos aqueles professores e funcionários da escola que me ajudaram a cumprir esta minha longa etapa da vida.

Àqueles para quem a minha aposentação representa um alívio, peço desculpa de todos os momentos em que o meu mau carácter sobrou para eles.

Continuarei por aqui e sei que estarei acompanhado por muitos dos meus colegas, em especial daqueles que no dia-a-dia, no departamento ou no pedagógico, me ajudaram a crescer como homem e professor durante tantos anos.

Para estes aqui fica o meu especial agradecimento.

Joaquim

terça-feira, 9 de setembro de 2008

4.º centenário do nascimento do P. António Vieira (1608-1697)

O dia de ontem, dia da natividade de Nossa Senhora foi um dia muito especial para a grande família humana que tem Nossa Senhora por sua mãe.
Quero, por isso, partilhar convosco este lindíssimo excerto do Sermão do Nascimento da Mãe de Deus do Padre António Vieira, homenageando, assim também, o 4.º centenário do seu nascimento.
Realço ainda quanto aquelas várias invocações de Maria estão bem presentes ainda hoje na cultura portuguesa, nomeadamente nos antropónimos femininos. Para muitos iconoclastas da nossa moderna sociedade já sei que a maior parte das mulheres deviam ser obrigadas a mudar de nome, em prol da laicidade fundamentalista que defendem. A contrariá-los ainda vão nascendo muitas Marias... até que algum se lembre de criar mais uma lei que o impeça!

Sermão do Nascimento da Mãe de Deus
Padre António Vieira

"Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que d'Ela nascesse Deus. (...)

Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo;
perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança. Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz; os discordes, para Senhora da Paz; os desencaminhados, para Senhora da Guia; os cativos, para Senhora do Livramento; os cercados, para Senhora da Vitória. Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho; os navegantes, para Senhora da Boa Viagem; os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso; os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte; os pecadores todos, para Senhora da Graça; e todos os seus devotos, para Senhora da Glória. E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus"

domingo, 3 de agosto de 2008

Férias em "A cidade dos estrangeiros no Sul"


Trouxe comigo o Hermann Hesse e comprovei que aquilo que ele escreveu em 1925 se aplica ao meu sítio de férias em 2008. "Esta cidade é uma das mais engraçadas e lucrativas empresas do espírito moderno"1).

O sítio onde moro por uns dias tem por nome "Lugar da Coca Maravilhas", onde tudo procura ser "autêntico", pois até, para os naturais, nem falta uma escola de seu nome "Escola Coca Maravilhas", ao lado da Santa Casa da Misericórdia, maravilhosa também!... Neste sítio tudo é harmonioso, autêntico! As igrejas protestantes (vários ramos) e católicas ofereciam hoje os seus ofícios dominicais e até, à noite, de um terceiro andar saíam ruidosas invocações espíritas, através de portadas escancaradas, devido ao calor. Fiquei a meditar no milagre da multiplicação dos pães, interrogando-me sobre a multiplicação das igrejas e cultos! Não consegui, ainda, resposta que me satisfizesse... a não ser ser que a resposta seja o "facto de não haver respostas" para estes homens, para este mundo!

Esta cidade foi desenhada à beira-rio onde bóiam adormecidos na noite barcos de todas as espécies: desde os rabelos do Douro, às gôndolas venezianas, passando pelos modernos veleiros agora repousando na marina, até mesmo uma "nau" a motor construída à imitação daquelas recordações artesanais que era moda fazer, há uns anos atrás, com fósforos e que os estrangeiros compravam como recordação do país dos descobrimentos...

De manhã e à tarde, a cidade vaza-se nos areais imensos, onde o Sol é o deus venerado depois das libações salgadas a que todos, de vez em quando, se submetem num ritual que, às vezes, por artes diabólicas, é interrompido pelo grito, pela buzina, pela campainha com que os naturais (melhor dito, os que não são estrangeiros) invocam o Euro pela "bola de berlim", pelo vestido "lindo... lindo", pelos óculos escuros e demais quinquelharias que profanam o ritual de "tostação" ("fritação" em casos mais extremos) a que todos se sujeitam.

No passeio ribeirinho, à noite, a irmandade universal aspira o ar tépido que se levanta do rio, onde se misturam as mais variadas vozes e odores: povos do norte ladeiam com os povos do sul, povos dos países do sol nascente cruzam-se com os do sol poente, de várias raças, cores e odores. Os múltiplos "falajares" fariam deste passeio ribeirinho uma nova Babilónia, não fosse o dialecto dos cheiros que todos entendem... Os mac's, as pizzas convivem com os restaurantes de peixe assado onde é rainha a sardinha. A linguagem comum que todos entendem é a do Euro. Melhor... toda a cidade vive para o Euro...

Mas hoje tive azar...

A sardinha não "pingava", o vinho estava quente e não havia pão de fatia...

... abandonei, resmungando, os meus euros e corri a refugiar-me no meu sítio, no Lugar da Coca Maravilhas...


1) Conto A cidade dos estrangeiros no Sul in "As mais belas histórias" de Hermann Hesse, Editorial Notícias, 2004


segunda-feira, 28 de julho de 2008

Aposentação

É palavra com que não simpatizo...
- segundo os dicionários, é "acto de aposentar ou aposentar-se". Vem de "de pouso por apousentar". Por sua vez "pouso" deriva do latim tardio "pausare, «cessar, parar, deter-se»" -
... mas é realidade a que não posso fugir, apenas adiar e, mesmo neste caso, até à idade legal para tal, isto é, àquele momento em que à luz da própria lei estamos "xexés"!

A minha relutância à palavra "aposentação" parece-me vir da sua associação a outras palavras, ou grupos nominais, tais como "casas de repouso", que, eufemisticamente, se associam à decomposição humana que, não me iludo, começa muito antes da chegada de cada um à sua "eterna pousada".

Enfim, tomar a decisão de me aposentar ou aguardar que me forcem a tal pouco muda na minha teoria de vida, mas faz diferença! É que, no primeiro caso, ainda consigo provar a mim mesmo que ainda não atingi a demência... enquanto, no segundo, serão outros a fazê-lo por já me considerarem naquele estado que se caracteriza, segundo os dicionários, pela "perda total ou parcial das faculdades mentais".

A que vem isto a propósito, perguntar-me-ão.
É que hoje mesmo, dia 28 de Julho de 2008, dei instruções à secretaria da minha escola que iniciasse o meu processo de aposentação... e com isso quis provar a mim mesmo que ainda não estou "xexé"!

Quantos anos continuarei ainda com esta minha certeza?

Com uma coisa alguns concordarão comigo: é que quanto mais tarde... pior!

sábado, 12 de julho de 2008

"Os filhos da minha filha meus filhos são... Os filhos da minha nora ou serão ou não!" - Ditado popular

Hoje fui à praia... No autocarro seguiam dois "senhores" mais novos do que eu. Um deles gabava-se do "grande feito" de sua mãe nunca ter aturado os netos, filhos da sua nora... e ali afiançava que iria fazer o mesmo! "Afinal ela não me é nada", dizia!

Ninguém diga que de esta água não beberá, pois, em conversa com a avó dos meus netos, verificámos que o ditado se encontra bem documentado na "nossa história". Também anotámos algumas excepções... de avós "excepcionais".


Mas que vêm estas reflexões ao caso? Vêm e muito!


Porque no próximo dia 26 de Julho, é dia dos avós... Dos meus três netos, portanto, e repito três e não um + dois, ou talvez!


Eu só tive uma avó... a mãe do meu pai que perdeu o seu ainda novo! A minha mãe não teve mãe a partir dos três anos e perdeu o pai alguns anos depois... Na segunda década do século vinte, a "pneumómica" fez os seus estragos... Já mo lembrou a minha mãe e agora lembro-o eu.


Portanto, só conheci a avó "Inécia". E dela só registo uma imagem: sentada à soleira da porta nos fins da tarde quando o sol já se escondia por detrás do Outeiro e o borburinho da aldeia ainda andava pelas hortas da Fosseirinha, da Forga da Boa e do Gamual. A minha avó era toda a povoação e eu com ela. Teria os meus três anos? Quatro... não mais. E vivia aquela serenidade naquele rosto onde o tempo cinzelou marcas de eternidade!

Vejam bem... o seu queixo não é o meu?




Quando o meu Francisco, o meu João e o meu Artur me virem daqui a alguns anos sentado na varanda da Maljoga, que vejam em mim a serenidade e a paz que eu ainda vejo na avó Inécia...


Que a minha nora e a minha filha, o meu genro e o meu filho respirem o mesmo ar que eu e a Vida será mais fácil para todos!
A avó dos meus netos está aqui ao lado a dizer que sim!

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Também vi provas de Português do 12.º ano - 1.ª fase de 2008

... e Camões ficou triste, mais triste ainda! Dizia o meu professor de Cultura Clássica (já lá vão trinta anos...) que Camões é prazer para alguns (os leitores que fazem por merecê-lo) e desprazer para a maioria que não ultrapassa aquela "apagada e vil tristeza" em que mergulha em cada dia.

"Honesto estudo"? Qual quê!

Prontifiquei-me a apoiar os meus alunos (uma dezena) que, sendo de Cursos Tecnológicos e portanto não sujeitos àqueles exames para conclusão dos respectivos cursos, os deviam fazer para se poderem candidatar ao ensino superior.

As sessões foram marcadas para o período não lectivo que antecede os exames. O tempo esteve fresco, pouco convidativo para a praia...

Vêm todos! - pensei.

Qual quê! Apareceu a Sofia que reviu a matéria ministrada durante o ano e fez os exames já aplicados nos anos anteriores (quatro ao todo...). Mas a Sofia era a que menos precisava, se atendermos à classificação interna final - 17 valores.

Saiu Camões... e parte do texto até tinha sido lido em aula. Tive curiosidade e fui ver os sumários. A essa aula vários alunos dos candidatos tinham faltado... Afinal só o professor e a Sofia é que nunca faltaram ao longo do ano. Teve 14 valores no exame nacional.

Parabéns, Sofia, pela tua nota no exame! Os outros que continuem a viver a sua "apagada e vil tristeza"... até que a "Vida" os corrija, se ela, de ignorante, lhes favorecer alguma entrada.

... Para o Ministério da Educação eu também fui a causa do insucesso. Nem era de esperar outra coisa de "senhores" que tão pouco prezam as Letras e o bom-senso quando as pronunciam!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Chico Nuno - um professor que lutou pela liberdade

HOMENAGEM AO Francisco Nuno (Xico Nuno)
Setúbal, Escola Secundária de Sebastião da Gama, 17 de Abril de 2008

Estamos hoje aqui guiados por um slogan que diz “Pelo Sonho Abrimos Caminhos de Futuro”, no âmbito das comemorações do centésimo vigésimo aniversário da escola secundária de Sebastião da Gama. E, na mira daquela mensagem, evocamos neste momento um professor que esteve entre nós e que também o podia ter dito - “Pelo Sonho Abrimos Caminhos de Futuro”. Estou a referir-me ao nosso saudoso colega Francisco Nuno mais conhecido pelo Xico Nuno.

Nas breves palavras que se seguem, vou, ainda que de forma simples, tentar, em breves traços, dar-vos uma caricatura deste colega que hoje homenageamos ligando-o, de forma definitiva, a esta Escola e a este ginásio onde o seu corpo pousou, pela última vez, em sofrido velório naquele mês de Novembro de 1989. (Morreu em Londres a 10/11/1989).
Vou organizar as minhas palavras em dois períodos bem distintos da sua vida: o antes e o depois do 25 de Abril de 1974. Foi um “homem de Abril” ainda antes de o Abril o ser e, por isso, não tardaram em amordaçar-lhe a voz. Depois de Abril, livre da mordaça, vimo-lo, de novo, renascer.

Antes do 25 de Abril – a mordaça

O Chico Nuno era um provinciano, como ele próprio gostava de se chamar, evocando, em conversa de sala de professores, o exemplo de Cesário Verde e o seu refúgio familiar de Linda-a-Pastora. Também ele se refugiava do bulício da vida no lugar da Mata em Torres Novas, onde nasceu a 14 de Março de 1934 e para onde debandava sempre que podia.
Estudou nos Seminários de Santarém e Olivais onde concluiu o Curso Teológico, tendo-se ordenado sacerdote.
Enquanto sacerdote, leccionou no Seminário e no Liceu de Santarém. Foi professor de personalidades como Mário Viegas, Hermínio Martinho e Rui Godinho e, no Liceu, logo no primeiro ano de leccionação, é reconhecida, pela voz insuspeita dos estudantes, a sua capacidade de mobilizar a juventude: durante a récita dos finalistas é apelidado de "homem que arrasta as multidões".
Depressa a sua observação dos mais desprotegidos da população escolar o leva a intervir socialmente, através do Secretariado Cristão dos Organismos Juvenis (SCOJ). Funda um lar para estudantes deslocados, com carências económicas, que funciona à semelhança das "repúblicas coimbrãs".
Também a mentalidade dos jovens o preocupava. O Jornal do Secretariado "SCOJ" constituía um verdadeiro fórum de ideias que se orientava numa perspectiva crítica aos poderes do antes 25 de Abril. Era divulgado pelos estudantes e por todos os conhecidos que passavam por Santarém.
Depressa os poderes se sentiram incomodados e a melhor maneira de calarem aquela voz foi a sua expulsão de Santarém. Estávamos nos anos já "quentes" de 69/70.
Passa então por Lisboa (Stella Maris), pela paróquia da Ajuda e, finalmente, vai para o Externato Frei Luís de Sousa de Almada. Enfim os responsáveis pelo patriarcado, de que dependia, vão-lhe mudando o “poiso” não permitindo que a sua voz incómoda ecoasse durante muito tempo no mesmo sítio. Ali pede a redução ao estado laical que lhe é concedida pelo Papa. Casa-se, depois de obtida aquela autorização papal, com a Dr.ª Natália Rodrigues que hoje e aqui nos honra com a sua presença, e regressa à aldeia. Estamos em Dezembro de 1975.

Depois do 25 de Abril – o renascimento

Com os novos ventos que sopravam da revolução dos cravos, o Francisco Nuno desenvolve actividade política no MDP/CDE. É director do Jornal A FORJA e Presidente do SFUM (Sociedade Filarmónica União Matense), sociedade que revitaliza com o seu dinamismo.
O editorial do primeiro número do Jornal “A Forja”, que vem a lume a 29 de Abril de 1976, (dois anos após a revolução) constitui uma fonte importante para conhecer a personalidade singular deste nosso colega na defesa de ideais progressistas e solidários. Caracterizando esse Abril de 2006, ele reconhece que “as maravilhosas descobertas do nosso povo, a partir do 25 de Abril, não têm tido o devido relevo” nas terras interiores do Ribatejo. E, com a publicação desse jornal, pretende constituir uma voz alternativa à imprensa regional caduca e ainda ligada a interesses anteriores à revolução. Pretendia ser o “eco dos anseios e realizações dos povos” daquela região que, segundo ele, não eram ouvidos pelos jornais então ali publicados. Segundo o seu estatuto editorial A Forja “terá de ser um acérrimo defensor dos trabalhadores e explorados do distrito. Será um jornal progressista. Não pactuará com as injustiças com os explorados. Não acolherá a mentira, nem o ódio simples e fácil”.
Quem privou, como eu, com o Chico sabe bem que aquele entusiasmo de editorialista era mesmo ele. Contudo, quando chega a Setúbal e aqui é colocado como professor na Escola que hoje o homenageia o seu ideal político vinha muito esmorecido. Tanto melhor para a escola, digo eu hoje, pois a sua natural liderança vai ser, nessa data, orientada para a Escola onde acabou por terminar a sua existência. Aqui, a sua capacidade de aglutinar professores e alunos depressa se evidencia. Em 1985 faz parte da Comissão Executiva da Semana de Cultura e Língua Portuguesa que "mexeu" com todas as escolas da cidade, em todos os graus de ensino. Logo após lançou-se numa das suas grandes paixões - o teatro. Tanto no Liceu de Santarém como aqui o “ir ao teatro” com os alunos não era para ele apenas “um passatempo cultural”, era (e ele sabia-o bem…) um instrumento com o qual procurava criar “pessoas livres”. Antes do vinte e cinco de Abril, ele sabia que a luta contra a tirania, opressão, traição, injustiça e todas as formas de perseguição passava muitas vezes pelos gestos, pelos cenários, pelas palavras dos dramaturgos, encenadores e actores que levavam o público a entender, de forma mais ou menos velada, a mensagem da liberdade numa terra nevoenta em que se vivia ainda. Após o vinte e cinco de Abril, ele tinha a consciência de que os nossos alunos só educariam a sua liberdade se reflectissem sobre exemplos de liberdade que eram representados nos palcos, agora livres, do nosso país agora renascido.
Precisamente no ano lectivo em que a morte o colheu 1988/1989 dinamizou o Festival Escolar de Teatro que envolveu várias escolas da cidade e as celebrações do Centenário do Ensino Industrial em Setúbal, de cuja Comissão Executiva fez parte.
Apesar de, tal como muitos de nós, ter sido professor e exercido vários cargos de gestão na escola (foi membro do Conselho Pedagógico e presidente do Conselho Directivo, entre outros), o que hoje homenageamos no Chico Nuno é a sua singularidade de homem e professor que ultrapassa em muito a nossa Escola, mas que a nossa Escola quer, a seu modo, reconhecer e perpetuar, ligando dando o seu nome a este ginásio e ao seu palco.
Assim, parafraseando a placa de reconhecimento com que Liceu / Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém o lembra todos os dias, também nós hoje queremos homenagear o Francisco Nuno (Xico Nuno), o Homem e o Professor que, nesta Escola e na década de oitenta do século passado, nos ensinou a ser mais responsáveis e livres.

Obrigado, Xico!

Prof. Mata Fernandes

quarta-feira, 25 de julho de 2007

EU SOU AVÔ!

Dia 26 de Julho é dia dos avós!


A data para a sua comemoração fixou-se no dia 26 de Julho de cada ano por ser a festa no calendário litúrgico católico de Santa Ana e São Joaquim, pais de Nossa Senhora. Assim este casal de santos foi proclamado padroeiro dos avós.

É comovente a história deste casal. Ana e Joaquim viviam em Nazaré. Não tendo filhos, pediam continuamente a Deus uma criança. Com os rogos constantes, Deus concedeu-lhes uma menina chamada Maria que viria a ser escolhida para ser mãe de Cristo.

Costuma-se dizer que ser avó/avô é ser pai duas vezes.... Não concordo, pois na expressão está encapsulada a ideia daqueles pais que se demitem das suas responsabilidades e "escravizam" os seus pais (agora avós), entregando-lhos para que os criem.E há aqueles avós que se sentem felizes por isso... Quem não se lembra da atitude babada com que, na obra "Os Maias" de Eça de Queirós, Afonso da Maia acolhe o seu neto Carlos da Maia, abandonado pela mãe quando foge com o Napolitano e abandonado pelo pai que se suicida?Discordo, mais uma vez...

Ser avô é outra coisa... É ser pai do seu filho que lhe "deu" um neto para que o neto saiba que tem um pai e um avô... e vá aprendendo, com a vida, que são dois "amigos" que estão ali e que gostam dele, cada qual à sua maneira. E vá aprendendo que aqueles dois que ali estão não vão nas "fitas" que vai arranjando para tirar daí os seus proveitos...

Como sabemos Carlos da Maia, educado com esmero pelos métodos mais modernos "à inglesa" como estava na moda, acabou por ser tão "romântico" como tinha sido seu pai. Enfim, "tal pai tal filho", apesar do esforço do avô em fazê-lo diferente.

Gosto que o meu neto saia ao "melhor" do meu filho e , para isso, estou aqui procurando ser o "melhor" avô!

É isso que continuamente peço a Maria, filha de Ana e Joaquim, para que consigamos pai / avô / neto crescer à semelhança de seu filho, Cristo nosso Senhor!

Quando os quadros interactivos se transformam em "tralha grotesca"...

"Ao contrário do que afirmou o nosso primeiro-ministro, a relação professor-aluno não muda por causa de um brinquedo que desenha de forma perfeita os ângulos e os losangos. O quadro interactivo não faz falta nenhuma ou melhor dizendo faz tanta falta quanto antes dele fizeram os ainda recentes acetatos ou os já desaparecidos flanelógrafos: se o professor for bom e se a turma estiver motivada, esses objectos ajudam a tornar mais interessante aquilo que já o é. Caso contrário, ou seja, se o professor for mau e se os alunos não estiverem interessados, então todas essas apregoadas maravilhas se transformam numa tralha grotesca."

"A escola do futuro anunciada por Sócrates é um local onde as figuras de autoridade como o professor e os funcionários são cada vez mais menorizadas e substituídas, nas aulas, pelos quadros interactivos e, nos pátios, pelas Câmaras de videovigilância. "

In Público, 25 de Julho de 2007,
Pingue-pongue, o Governo antropofóbico, por Helena Matos

terça-feira, 17 de julho de 2007

A lição do Ricardo

O Ricardo fez parte, durante este ano lectivo, da turma do 12.ºI. Era uma turma do curso Tecnológico de Marketing que "apareceu" ligada à turma 12.º F - uma turma da área científico-humanística de Artes Visuais.

Poder-se-á não entender o porquê das aspas na palavra apareceu e, por isso, acrescento que, para conclusão do curso, o Ricardo (e os seus colegas da turma I) não precisava de se submeter a exame nacional, bastando-lhe a média positiva dos três anos de frequência, enquanto os alunos da turma F (científica-humanística), para além da frequência dos três anos, se tinham de sujeitar a exame final para conclusão do curso.

No início do ano, apuradas as expectativas individuais de cada aluno sobre o processo de ensino-aprendizagem para o ano que se iniciava, enquanto os colegas iam dizendo que precisavam uns de oito outros de nove valores, o Ricardo saiu-se com esta: "eu preciso de onze". Na verdade, a avaliação do Ricardo, sobretudo 11.º ano, não tinha sido "famosa".

É claro que para alunos que colocam a sua "bitola" tão em baixo, as "coisas" não podem correr bem. Assim, a maior parte destes alunos não conseguiu o oito ou nove almejado, nem no primeiro nem no segundo período.

No terceiro é que ia ser... E foi, pasme-se! Uns tantos conseguiram o oito almejado (e concluíram o ano), a outros o oito foi-lhes atribuído por consenso maioritário do Conselho de Turma (apesar do meu voto contra!) e o Ricardo anulou a matrícula. Disse-me, "preferia sujeitar-se a exame no fim do ano".

Levei o período a questionar-me sobre a razão do Ricardo para ter anulado "tão convictamente" a matrícula.

Sujeitou-se a exame!

Na 1.ª fase, não lhe correu bem... mas, na 2.ª fase, ficou aprovado com 12 (11,3 na prova escrita e 12 na prova oral).

No final, encontrei-o sorridente no corredor... Tinha conseguido! E tentei esclarecer a minha dúvida! "Professor, preferi dedicar-me à Matemática durante o terceiro período e também consegui passar!".

E eu a pensar que tinha sido... Não! Mais simples e eficaz: traçou objectivos e conseguiu atingi-los. "Professor, estudei mais Português nestes últimos quinze dias do que durante o ano todo!... mas consegui!"

Mas porque é que temos de considerar os nossos estudantes uns seres inferiores que temos continuamente de trazer ao colo, resolvendo-lhes os problemas que só a eles cabe resolver?

Parabéns, Ricardo, pelo "sucesso" que arrancaste de dentro de ti!

Obrigado, Ricardo, pela lição que "me" deste!

sábado, 14 de julho de 2007

Os meus queridos alunos do 12 F - turma de artes


Convidaram-me para jantar. Eu estava fulo com eles, pois os resultados no exame nacional não foram aquilo que eu estava à espera... À sobremesa, pensei eu, vou ter oportunidade de dizer umas palavras e, então, vou dizer-lhes umas verdades.

Em conversa com o Tapadinhas, dias antes, eu fiquei desconcertado quando ouvi "professor, eu só precisava de cinco, vou poder candidatar-me!". A Joana, não... estava desiludida com ela própria, e sentiu o peso de não ter conseguido a nota que estava ao seu alcance - independentemente da média! A Sara Oliveira e a Mafalda, apesar de achar que podiam ter ido mais longe, salvaram a "honra do Convento". A Rute Morais, a poetisa da turma, estava "abatida", pois as musas deram lugar ao destino inexorável que a conduziram "à humilhação"!

Enfim, hoje à sobremesa seria a hora para descarregar a minha "fúria"...

Comidos e bebidos, escrevi uma frase no livro de anos que a turma acabava de oferecer ao Pedro. Quando ditava para a minha mente as palavras que de seguida iria despejar, a Sara O. tira de um saco um livro e, após algumas palavras que nem ouvi (pois as minhas ocupavam todo o espaço da mente...), entregou-me um álbum fotográfico anotado e com dedicatória para o professor "agora que chegou a altura de deixar as suas "jóias" saírem da joalharia e seguirem os seus caminhos".

Rendi-me... Eu que sou tão exigente e racional derreti-me... A felicidade de um ano terminado invadia-lhes o rosto, estavam alegres e, afinal, foi sempre isso que eu tinha desejado para eles... e veio-me à mente aquela expressão tão humana de Sebastião da Gama: "O que eu quero é que vivam felizes"

É isso - que a vida não lhes seja "madrastra" e, se o for, que tenham aprendido a dar-lhe a volta - por cima!

terça-feira, 10 de julho de 2007

Alunos-professores

Nestes dias tenho participado na minha Escola numa acção de formação, acreditada pelo Centro de Formação de Professores Arrábida, sobre a Plataforma Moodle, tendo em vista a sua utilização na gestão das actividades de ensino-aprendizagem.

Participamos aproximadamente 30 professores das mais variadas disciplinas e com um nível de conhecimentos em TIC muito diferenciado.

Ao rever-me numa das minhas muitas aulas, agora com a pele de aluno, verifico que o insucesso dos alunos pode repetir-se da mesma forma em nós como alunos-professores. O sistema viciado repete-se. Eu explico:

A cada uma das indicações dadas pelo Professor-monitor as reacções dos alunos-professores não é simultânea, pois como já se disse o nível de conhecimentos em TIC é muito diferenciado entre eles. Assim, os professores mais "entendidos" avançam e progridem, procurando mesmo que o Professor-monitor esclareça novas dúvidas que já se lhes põem, enquanto os outros alunos-professores ficam "parados", pois não conseguiram sequer avançar do ponto em que se encontravam. Assim, os professores "expert", sem terem consciência disso, acabam por criar um ambiente desfavorável àqueles que precisam mais de apoio.

O Professor-monitor bem tenta de diversas formas mostrar a estes professores-alunos que devem seguir o ritmo dos mais "lentos" que ele próprio procura privilegiar, prestando-lhes uma ajuda pontual mas...

Há professores-alunos que, assim, se desmotivam e a sua atitude é exactamente a mesma que a dos nossos alunos na sala de aula: preferem calar-se ou queixar-se da sua "falta de jeito", deixando instalar-se neles uma desmotivação crescente.

Quanto ao Professor-monitor, tal como nós professores em sala de aula, acaba por sofrer uma pressão desgastante que seria evitável se cada um dos seus alunos-professores fosse mais disciplinado, tal como pedimos aos nossos alunos: executar apenas aquilo que lhe foi indicado, ajudar o colega do lado com espírito solidário e disciplinadamente, fazer silêncio e levantar o braço quando precise de ajuda do Professor-monitor e desligar o telemóvel, pois não se pode estar em mais que um lado ao mesmo tempo.

sábado, 7 de julho de 2007

Dia do Software Livre na Escola

Participei nesta acção promovida pelo Centro de Competência Arrábida, com a colaboração empenhada do CRIE (Equipa Multidisciplinar Computadores, Redes e Internet na Escola) e da DGIDC (Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular) do Ministério da Educação.

Estive presente em toda a sessão, mas bastar-me-ia assistir à primeira apresentação e à última para perceber dois modelos de trabalho "singulares" - cada um a seu modo.

Na primeira, Vicente Parejo apresentou o modelo que está implantado em toda a Estremadura Espanhola por decisão do Governo daquela Província. É tudo muito simples. Eu explico: o governo da região tomou uma decisão (todas as Escolas vão utilizar software livre) e ordenou os meios para implementá-la: computadores q.b. ligados em rede a servidores locais e regionais; engenheiros informáticos (não são professores, apenas técnicos)um por cada mil alunos e dois, a partir dos mil, responsáveis por manter o sistema a funcionar; professores (apenas professores...) que utilizam as ferramentas TIC nas suas aulas e para isso têm formação com carácter obrigatório; alunos que executam as tarefas que lhes são exigidas (até porque o sistema informático não lhes permite que andem por ali "a navegar"...); há prémios monetários para as melhores escolas e para os melhores professores; quem não estiver disposto a participar, é convidado a procurar outro trabalho. Enfim, tudo "simplex". Os próprios encarregados de educação têm o seu espaço no sistema informativo, podendo on line verificar se os seus educandos não ficaram no Centro Comercial em vez de ir às aulas, os trabalhos que o professor de Português marcou, a matéria sumariada... Tudo em Software Livre devidamente disponibilizado pelo governo daquela Província Espanhola.

Ao fim da tarde, ouvimos o que se faz em Portugal em algumas Escolas no que respeita à utilização do Software Livre. Também tudo muito claro: o prof. Paulo Chouriço explicou como é que na Escola Secundária de Palmela, anfitriã que acolheu o evento, conseguiu construir uma rede com os Pentium velhinhos; o Carlos Nunes apresentou um interessante projecto que está a dinamizar na Escola Secundária de Albufeira e da mesma forma o Alexandre Martins e o Artur Santos nas Escolas Secundária Soares dos Reis e no Agrupamento Padre Vítor Milícias, respectivamente.

Ainda no Painel do fim da tarde, ouvimos aquilo que todos sabemos sobre o software empresário utilizado nas nossas Escolas, pela boca do "insuspeito" Vítor Teodoro, professor no Instituto Superior Técnico. Afirmava ele que, se uma inspecção viesse às Escolas verificar as licenças de utilização de software, teria dúvidas de quem é que iria "preso": se os Conselhos Executivos, se os Directores Gerais ou se o Ministro da Educação... Numa intervenção anterior e apresentando os resultados de um estudo sobre o uso de software livre, ainda não completo, o prof. José Luís Ramos da Universidade de Évora dizia que o uso deste software é dinamizado apenas por grupos isolados de professores que, por vezes, têm de lutar contra tudo e todos (incluindo os próprios Conselhos Executivos) para poderem ir fazendo alguma coisa com uma dimensão muito limitada.

No fim da tarde, e fora do programa, o Secretário de Estado, Jorge Pedreira, assinou um protocolo com a Universidade de Évora para que esta instituição promova e divulgue uma plataforma a que se dá o nome de Alinex e que tem muito a ver com gnuLinEx desenvolvido na Estremadura Espanhola.

Esperar para ver... Mas não será que já esperamos há tempo de mais?

terça-feira, 3 de julho de 2007

Setúbal / Dia de Portugal 2007

Um discurso que coloca os "marcos" da história de Setúbal. Haja quem assuma a defesa da "propriedade"

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Discurso do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, Dr. João Bénard da Costa
Setúbal, 10 de Junho de 2007

Senhor Presidente da República
Senhor Presidente da Assembleia da República
Senhor Primeiro - Ministro
Senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
Senhor Presidente do Tribunal Constitucional
Senhora Presidente da Câmara Municipal de Setúbal
Senhor Bispo de Setúbal
Senhores Embaixadores
Senhores Ministros
Senhores Deputados
Minhas Senhoras e Meus Senhores


Trinta anos depois do início das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, sob o figurino de que actualmente se revestem, chega, finalmente, a hora e a vez de Setúbal ser palco delas. Se outras justiças não houvesse – e delas falarei mais adiante – justiça poética se cumpriria, pois que o maior poeta desta cidade – a sua figura permanentemente mais celebrada, pelo menos desde que António Feliciano de Castilho lhe promoveu, em 1865, as comemorações do centenário do nascimento – foi o primeiro ou dos primeiros a invocar em verso Camões: "Camões, grande Camões, quão semelhante / Acho teu fado ao meu, quando os cotejo! / Igual causa nos fez, perdendo o Tejo, / Arrostar c'o sacrílego gigante".

Bocage, pois que é dele que falo, não devia imaginar que, com esse célebre soneto em que de Camões disse: "Modelo meu tu és…", estava a inaugurar uma infindável série de poemas em louvor do Poeta de quem celebramos hoje o dia. Pois foi pela voz dele e da geração dele que se estabeleceu – cerca de duzentos anos depois da morte de Camões – a equívoca unanimidade que o proclamou e proclama o luso "Príncipe dos Poetas". Apesar dos que se precipitaram no século XVII para lhe roubar tudo: "as ideias, as palavras, as imagens / e também as metáforas, os temas, os motivos, / os símbolos, e a primazia / nas dores sofridas de uma língua nova" (estou a citar outro poeta nosso maior, Jorge de Sena, e o admirável poema "Camões dirige-se aos seus contemporâneos") a critica dominante no século XVIII ou esqueceu o poeta, ou verrinosamente o atacou, não reconhecendo essa língua nova. Foram os pré-românticos, como Bocage, ou, depois, os românticos, como Garrett, quem o recuperou, até na imagem mítica que o século XIX tanto alardeou.

Falei de "equívoca unanimidade". A expressão aplica-se por igual a Bocage, tantas vezes saudado como o nosso maior poeta depois de Camões. Mas se lhes demos – a um e a outro – tal assento etéreo, pouco mais lhes demos. Já um dia, num destes discursos, me perguntei e vos perguntei: onde estão as edições criticas de Camões? Para que parte da sua obra se fez fixação do texto? Que sabemos ao certo sobre a sua vida? Com quanta razão disse Sena – cito-o nova e gostamente – "que em matéria de Camões é um perigo dizer seja o que for"?

E em matéria de Bocage? Conhecem-se as anedotas, alguns poemas eróticos e é com lembrança delas e deles que encobrimos quase sempre com um sorriso cúmplice (ou malandreco ou pudibundo) as referências ao seu nome. Saberão alguns que, perto da morte, Bocage já se não comparava a Camões, mas a Aretino, o grande poeta renascentista italiano, cuja reputação libidinosa atravessou os séculos. Mas se ao menos Bocage tivesse sido estudado como Aretino o foi! Aquele que chamou aos prazeres seus sócios e seus tiranos, numa analogia deveras singular, não desapareceu "desfeito em vento", numa "cova escura", como profetizou, mas dissolveu-se na nossa ignorância, no contumaz desconhecimento ou desfiguração do nosso património e na insólita relação com a memória que aos portugueses mais parece faltar do que qualquer outro atributo, ou de que os portugueses menos curam do que de qualquer outro atributo.

Justiça poética, disse eu que se fazia ao comemorar o Dia de Camões na cidade de Bocage. E já nem falo no esquecidíssimo Vasco Mousinho de Quevedo, que Faria de Sousa também considerou, no século XVII, "o maior depois de Camões" e de quem se ignoram mesmo as datas de nascimento e morte. Lá o figuraram, no século XIX, aos pés de Camões, na estátua do Chiado, mas não conheço ninguém que tenha lido o seu Afonso Africano, à glória do rei que, sob a luz brilhante aqui de Túbal, partiu em 1458 à conquista de Alcácer Seguer. E estou a citar, mais uma vez, Bocage e o soneto que começa: "Apenas vi do dia a luz brilhante / Lá de Túbal no empório celebrado"

Mas outras justiças há, mais ou menos poéticas, de que importa falar nesta cidade de sol e de sal, que é também – convém usar e abusar de poetas neste dia – meu remorso, meu remorso de todos nós.

Se tem sido inúmeros os cantores das belezas naturais que a cercam (a Arrábida, Palmela, o Outão) em que Andersen, o dinamarquês dos contos e das maravilhas, dizia, da Quinta das Machadas dos O'Neill em que se hospedou em Portugal, ter encontrado o paraíso terreal, permanece, sobre tais arrobos, a seca síntese de Raul Proença ao escrever que esta "maravilha do décor, da moldura, fazem esquecer o pouco interesse que em si apresenta a cidade – que é um bairro antigo de Lisboa, entre laranjeiras, com o mesmo aspecto das casas, as mesmas ruas estreitas da Mouraria ou do Bairro Alto, e com uma ou outra praçazinha solitária e cheia de sol".

É certo que a cidade, apesar da vastidão dos seus horizontes, sempre se abrigou deles e é certo que é uma das cidades mais secretas de Portugal, no seu aparente escancaramento. É certo que traços mais primitivos foram abatidos – ainda mais do que em Lisboa – por tremores de terra que parcialmente a destruíram em 1531, 1755 e 1858. É certo que não foi poupada nem pela invasão espanhola de 1580, nem pelos Filipes que não lhe perdoaram o apoio dado ao Prior do Crato, nem pelas invasões francesas, nem pelas guerras civis dos inícios do século XIX. É certo que não podemos imaginar o seu esplendor, quando o Sado chegava onde hoje fica a Avenida Luísa Todi, e holandeses acorreram à cidade em busca do mais precioso dos seus produtos: esse sal, dito o de mais puros cristais da Europa, que serviu de moeda de troca para um acordo com a Holanda, visando a recuperação das colónias de África, América e do que restava do Oriente. Sabe-se que, apenas em dez anos, entre 1680 e 1690, saíram de Setúbal 7500 navios carregados de sal para os Países Baixos.

"Toda a terra é retalhada do mar, com que juntamente vem a ser mar e terra, e os homens, a que podemos chamar marinhos e terrestres, tanto vivem em um elemento como no outro. As ruas por uma parte se andam e por outra se navegam, e tanto aparecem sobre os telhados os mastros e as bandeiras, como entre os mastros e as bandeiras, as torres (…). Em muitas partes toma o navio porto à porta do seu dono, amarrando-se a ela e deste modo vem a casa a ser a âncora do navio e o navio a metade da casa, de que igualmente usam".

O Padre António Vieira, que tanto usou o sal como metáfora – e, apesar de estar na cidade dele, me guardo prudentemente de citar o Sermão de Santo António aos Peixes ou o que sucede quando o sal não salga e a terra não se deixa salgar – descreveu da maneira que citei Amsterdam, em alusão aos holandeses, ou Setúbal, que ele bem conhecia e onde os holandeses tinham reencontrado uma cidade que, nas mesmas condições, reproduzia o mesmo aspecto? Duvida-se? Pois percorram a cidade velha com atenção (a atenção que não é costume dedicar-lhe) e ainda são várias as casas que, não fora o recurso aos diferentes materiais e métodos de construção, se podem confundir com casas de Amsterdam.

Cidade secreta, disse eu. Secreta é-o no nascimento como cidade – dela não falam os nossos primeiros cronistas; secreta é a sua evolução entre o foral de D. Afonso II (1249), a lenda da Senhora da Água ou da Senhora Pequenina, a fundação da Casa do Corpo Santo (1340) e a construção das muralhas da vila, ao tempo de D. Afonso IV, para as quais o povo desta cidade se colectou com a primeira siza que houve em Portugal.

Mas só no século XV, Setúbal se tornou uma cidade que conta, com a casa Cabedo e o casamento de D. João II com D. Leonor de Lencastre, sua prima direita. Porque escolheu o Príncipe Perfeito Setúbal como cidade da sua predilecção? Como o seu pai o deixara "rei das estradas", para usar expressão do próprio, tantas as benesses que D. Afonso V dera às grandes casas nobres, para destruir esse poder que o ameaçava, nada melhor do que Setúbal que nenhuma grande família escolhera para residência.

E foi em Setúbal que aconteceu a "noite de muito grande terror e espanto", como Garcia de Resende se refere à noite de 23 de Agosto de 1484, em que D. João II assassinou por suas próprias mãos o primo e cunhado, o Duque de Viseu, e depois mandou chamar o irmão mais novo daquele, o futuro Rei D. Manuel, para que lhe beijasse a mão real junto ao cadáver do outro irmão da própria mulher.

Mas foi esse mesmo D. Manuel quem veio a dar a Setúbal, por foral de 1514, o título de Notável Vila, enquanto nela mandou edificar o seu mais célebre monumento: O Convento de Jesus.

O sangue também se lava com o sal. Nos séculos seguintes os iates do sal, como assim mesmo eram chamados, transportavam das marinhas para o centro da cidade a sua principal riqueza. Se o século XVIII é o século de Bocage, e de Luísa Todi, esses e outros vultos não nasceram na cidade por acaso, mas reflectem tanto uma riqueza comercial que atraiu à cidade banqueiros de Hamburgo (os Torlades) como nela fomentou a criação de academias, como essa chamada adequadamente Problemática, numa cidade que o foi e o continua a ser.

Mas Setúbal manteve-se cidade secreta, mesmo em épocas mais recentes. Talvez seja das cidades de Portugal a que tem mais para contar e da qual menos se conta.

Por isso, hoje, tão demoradamente me centrei nela. Este, como ser o dia do Poeta, é o dia das memórias e as memórias valem tanto mais quanto mais esquecidas se tornam. Nesta cidade, que viveu de conservantes, de conservas e de conservações, só a memória se não conservou. Salvaguardar o futuro? Mas o futuro só se salvaguarda quando se restituiu ao tempo o que cada tempo a seu tempo trouxe, verdade elementar mas verdade de que tão pouco curámos e curamos.

Senhor Presidente da República: muito obrigado por me ter dado a palavra. Minhas Senhoras e Meus Senhores: muito obrigado por me terem escutado.

Escolas / Ensino

"Acreditamos numa escola onde a autoridade do professor é protegida, o mérito do aluno é reconhecido, a exigência é uma prática e a disciplina é um quotidiano"
Paulo Portas, in Público 2/7/2007