quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Sala dos professores - 2.º capítulo
Entrei, com os professores do primeiro turno da manhã, às 8.15, para a minha última aula com o 9.º. É uma turma "singular": 21 alunos no total, dos quais cinco estão sinalizados como sujeitos a P.E.I.; três outros alunos ficaram retidos no 9.º ano transacto. Despedi-me deles a falar sobre Gil Vicente e o seu teatro. "À barca, à barca, que temos gentil maré"... mas eu já a preparar a minha barca que, hoje, largou para outros rumos, outros portos, novas marés...
Depois fiz "sala de professores" até às 13.30 para me despedir de uma das minhas turmas do 10.º ano, uma turma do Curso Profissional Técnico, que me garantiu, na aula de apresentação, que lhe tinha sido dito que os alunos dos cursos profissionais não tinham de comprar / usar material de trabalho a Português. Lá lhes fui lembrando, que profissional sem instrumentos de trabalho que saiba utilizar nunca poderá aspirar a um trabalho condigno... Um "gozão" também me foi lembrando que o que ele mais desejava era "emprego" e não trabalho e, por solicitação minha, uma vez que se recusava a passar o sumário, fez a seguinte declaração que me entregou, com solenidade, no fim da aula: "Eu, segue-se o nome que omito, não passo nem o número das lições, nem a data, nem os sumários, visto que estes componentes não são nem estão no módulo e não são matéria e vão corromper o meu estudo" (sic). Foi uma aula má, conflituosa, penosa para o professor e alguns alunos. Sebastião da Gama, patrono da escola, me valha e me perdoe, mas deixei a turma aliviado.
Fiz novamente "sala dos professores" até às 17 horas, para dar a minha última aula (também a uma turma do curso profissional técnico) com que terminei a minha actividade como professor no activo. Lemos textos de cariz autobiográfico e anotámos as suas características. Ao terminar a aula, informei-os de que aquela era a minha última aula como professor, momento que eles sabiam que, mais tarde ou mais cedo, iria acontecer. Por momentos o silêncio caiu sobre a sala para, depois, um dos alunos me saudar com uma salva de palmas no que foi seguido pelos restantes. Agradeci-lhes emocionado.
Pelas 19.00 horas passei pelo Conselho Executivo para me despedir, oficialmente, da Escola.
Uma surpresa, contudo, ainda me estava reservada para este dia: os meus colegas do grupo disciplinar de Português e Francês ofereceram-me, (a mim e à colega Ofélia, anteriormente reformada), num dos restaurantes da cidade, um "jantar de homenagem", mas não de despedida sublinharam. Disseram palavras muito bonitas que me sensibilizaram imenso. Contudo, o que mais me tocou foi ver todos os colegas presentes, apesar de todos os esforços (intimidativos mesmo...) que, no ano transacto, foram feitos para nos separar.
Voltarei à sala de professores da Escola onde leccionei durante três décadas?
Não sei. Contudo, ficarei por aqui (atento a todos) com a disponibilidade que o meu "novo estado" me for permitindo.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Sala dos Professores - 1º capítulo
Oficialmente soube ( e neste assunto fui o primeiro a saber...) que por despacho de 2008-09-22 da direcção da CGA me "foi reconhecido o direito à aposentação".
Sei que foram sinceros!... afinal este é um dos acontecimentos que na vida do comum dos mortais só sucede uma vez (não falo daqueles que forjam para si reformas após meia dúzia de anos a fazer não se sabe bem o quê...). Sei que foram sinceros e estou-lhes grato por isso. Estou-lhes também grato, pois a pensão que acabo de receber, em rigor, também eles me ajudaram a conquistar. Que é um professor durante a sua carreira sem os seus colegas de turma, de ano, de departamento, de escola? Nesta, mais que em qualquer outra profissão, a expressão "homem algum é uma ilha" faz sentido.
Obrigado, muito obrigado, pois, a todos aqueles professores e funcionários da escola que me ajudaram a cumprir esta minha longa etapa da vida.
Àqueles para quem a minha aposentação representa um alívio, peço desculpa de todos os momentos em que o meu mau carácter sobrou para eles.
Continuarei por aqui e sei que estarei acompanhado por muitos dos meus colegas, em especial daqueles que no dia-a-dia, no departamento ou no pedagógico, me ajudaram a crescer como homem e professor durante tantos anos.
Para estes aqui fica o meu especial agradecimento.
Joaquim
terça-feira, 9 de setembro de 2008
4.º centenário do nascimento do P. António Vieira (1608-1697)
Quero, por isso, partilhar convosco este lindíssimo excerto do Sermão do Nascimento da Mãe de Deus do Padre António Vieira, homenageando, assim também, o 4.º centenário do seu nascimento.
Realço ainda quanto aquelas várias invocações de Maria estão bem presentes ainda hoje na cultura portuguesa, nomeadamente nos antropónimos femininos. Para muitos iconoclastas da nossa moderna sociedade já sei que a maior parte das mulheres deviam ser obrigadas a mudar de nome, em prol da laicidade fundamentalista que defendem. A contrariá-los ainda vão nascendo muitas Marias... até que algum se lembre de criar mais uma lei que o impeça!
Sermão do Nascimento da Mãe de Deus
Padre António Vieira
"Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que d'Ela nascesse Deus. (...)
Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança. Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz; os discordes, para Senhora da Paz; os desencaminhados, para Senhora da Guia; os cativos, para Senhora do Livramento; os cercados, para Senhora da Vitória. Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho; os navegantes, para Senhora da Boa Viagem; os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso; os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte; os pecadores todos, para Senhora da Graça; e todos os seus devotos, para Senhora da Glória. E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus"
domingo, 3 de agosto de 2008
Férias em "A cidade dos estrangeiros no Sul"
Trouxe comigo o Hermann Hesse e comprovei que aquilo que ele escreveu em 1925 se aplica ao meu sítio de férias em 2008. "Esta cidade é uma das mais engraçadas e lucrativas empresas do espírito moderno"1).
O sítio onde moro por uns dias tem por nome "Lugar da Coca Maravilhas", onde tudo procura ser "autêntico", pois até, para os naturais, nem falta uma escola de seu nome "Escola Coca Maravilhas", ao lado da Santa Casa da Misericórdia, maravilhosa também!... Neste sítio tudo é harmonioso, autêntico! As igrejas protestantes (vários ramos) e católicas ofereciam hoje os seus ofícios dominicais e até, à noite, de um terceiro andar saíam ruidosas invocações espíritas, através de portadas escancaradas, devido ao calor. Fiquei a meditar no milagre da multiplicação dos pães, interrogando-me sobre a multiplicação das igrejas e cultos! Não consegui, ainda, resposta que me satisfizesse... a não ser ser que a resposta seja o "facto de não haver respostas" para estes homens, para este mundo!
Esta cidade foi desenhada à beira-rio onde bóiam adormecidos na noite barcos de todas as espécies: desde os rabelos do Douro, às gôndolas venezianas, passando pelos modernos veleiros agora repousando na marina, até mesmo uma "nau" a motor construída à imitação daquelas recordações artesanais que era moda fazer, há uns anos atrás, com fósforos e que os estrangeiros compravam como recordação do país dos descobrimentos...
De manhã e à tarde, a cidade vaza-se nos areais imensos, onde o Sol é o deus venerado depois das libações salgadas a que todos, de vez em quando, se submetem num ritual que, às vezes, por artes diabólicas, é interrompido pelo grito, pela buzina, pela campainha com que os naturais (melhor dito, os que não são estrangeiros) invocam o Euro pela "bola de berlim", pelo vestido "lindo... lindo", pelos óculos escuros e demais quinquelharias que profanam o ritual de "tostação" ("fritação" em casos mais extremos) a que todos se sujeitam.
No passeio ribeirinho, à noite, a irmandade universal aspira o ar tépido que se levanta do rio, onde se misturam as mais variadas vozes e odores: povos do norte ladeiam com os povos do sul, povos dos países do sol nascente cruzam-se com os do sol poente, de várias raças, cores e odores. Os múltiplos "falajares" fariam deste passeio ribeirinho uma nova Babilónia, não fosse o dialecto dos cheiros que todos entendem... Os mac's, as pizzas convivem com os restaurantes de peixe assado onde é rainha a sardinha. A linguagem comum que todos entendem é a do Euro. Melhor... toda a cidade vive para o Euro...
Mas hoje tive azar...
A sardinha não "pingava", o vinho estava quente e não havia pão de fatia...
... abandonei, resmungando, os meus euros e corri a refugiar-me no meu sítio, no Lugar da Coca Maravilhas...
1) Conto A cidade dos estrangeiros no Sul in "As mais belas histórias" de Hermann Hesse, Editorial Notícias, 2004